quinta-feira, 10 de julho de 2008

Tempos de crise


(Preços do gasóleo - fonte New York Times)

Nos tempos que correm, onde se conjugam uma série de dificuldades a diferentes níveis, a generalidade das pessoas são afectadas por um ou vários problemas.

Desemprego, baixos rendimentos, doença, fome, são inumeráveis tipos de problema a concorrer para uma baixa qualidade de vida a que poucos escapam. Para além dos problemas que afectam cada indivíduo em particular existe um mal-estar e uma desconfiança, ou falta de confiança no evoluir da economia que acaba por arrastar todos os outros indicadores.

Ao mal-estar pessoal acresce o facto de cada um ter conhecimento de inúmeros problemas ao redor do indivíduo ou da família enquanto ilha. Esta ilha, que tem vindo a reduzir de tamanho, não deixa de se aperceber das outras ilhas em volta e dos problemas que existem de forma generalizada.

Para tentar contornar estes problemas, quando ainda nem tudo estava mal, as grandes metrópoles tentaram afastar os males. Mudaram os bairros problemáticos para as periferias e tentaram por tudo afastar os pobres das ruas encaminhando-os para centros de acolhimento, o que em grande medida resultava até para o bem das pessoas.

O problema desta crise generalizada, que vai necessariamente terminar tal como todas as outras terminaram ao longo da história, importa cuidar do presente mais ainda do que pensar no futuro.
O evoluir para o final da crise exige obviamente que se pense no futuro e onde queremos chegar, mas entretanto importa cuidar das pessoas. Enquanto as soluções não forem aparecendo vai acontecer o sacrifício de muita gente, sacrifício este que até pode ser da dignidade ou da falta de assistência aos mais diversos níveis. Quando as coisas correm bem as pessoas algumas campanhas bem apresentadas podem levar a manifestações de solidariedade aos mais diversos níveis.

As pessoas tendem a contribuir para a melhoria da sua comunidade, podem aceitar mais facilmente os aumentos das taxas e podem até surgir medidas mais filantrópicas.
Então a questão é que dada a situação de crise, as pessoas tentam em primeiro lugar resistir ao embate o que dificulta a ajuda aos mais necessitados. Este comportamento é perfeitamente natural, mas os estados têm que se chegar à frente no apoio ás populações e na garantia das condições mínimas e até acima do mínimo.

Quanto ás pessoas, há que resistir, aguentar o embate até ao dia em que se vai dizer que a crise, as diversas crises, estão a melhorar.

Os sinais são preocupantes mas não estão nas mãos nem das pessoas nem dos pequenos países, portanto resta-nos ter esperança na recuperação porque mais cedo ou mais tarde vai acontecer.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Se o mundo nos cair em cima



Um dos factores que leva o homem a agir é a necessidade de sobrevivência ou a vontade de melhorar as condições de vida. A sobrevivência continua a falar mais alto nas profundezas do cérebro, como o provam diversos trabalhos de investigação clínica.

Nas situações de emergência este mecanismo leva-nos a reagir, a fugir do perigo ou a parar antes do acidente. O problema põe-se quando a situação de perigo não é evidente aos diferentes níveis do cérebro, isto é, quando o problema não parece requerer acção urgente e portanto os mecanismos mais profundos não estão activados.

Estamos a falar por exemplo, de quando uma pessoa tem uma alimentação descuidada e coloca em risco a saúde sem que se aperceba, porque não há um sintoma imediato. Ou quando há um vício que vai arruinando a saúde mas não constitui um risco imediato.

Todos os dias nos expomos à radiação ultravioleta do sol, a qual não é visível. Se fosse uma luz vermelha ou azul provavelmente não deixávamos que atingisse a nossa pele. Também a combustão dos motores polui o ar, mas como os gases são incolores ou se dispersam no ar, não temos a mínima percepção das substâncias nocivas que estamos a respirar. O mesmo se aplica ao tabaco. Deixo as questões de sistema nervoso autónomo, simpático e parassimpático para quem de direito.

Vem isto a propósito do que tem acontecido nos últimos tempos ao nível da energia, economia e ambiente. Qualquer destas vertentes não foi acautelada em tempo útil e o resultado está à vista. Sem dúvida que a economia escapa um pouco a este cenário já que estão em jogo interesses pessoais ou corporativos. Já o ambiente é um conceito muito mais vago e secundário para quase toda a gente e em especial para quem tem o poder financeiro.

Os cuidados do ambiente nunca foram seriamente acautelados sobretudo porque teriam reflexo nas finanças, e a prioridade dos interesses pessoais, leia-se finanças, prevalece sempre sobre o bem colectivo, o ambiente. Já a energia tem outro problema, o petróleo era barato e o desenvolvimento industrial foi baseado em máquinas que consomem derivados do petróleo. Como o desenvolvimento e a economia é feita baseada nos pressupostos actuais ou a curto prazo, sabia-se que o petróleo havia de escassear, mas como diria Abraracourcix nos livros de Asterix “o mundo vai-nos cair em cima, mas amanhã não é a véspera desse dia”.

Hoje sabemos que o mundo nos vai cair em cima! De uma forma ou de outra, vamos sofrer as consequências da destruição das condições ambientais que deveriam existir num mundo em equilíbrio.

O problema é precisamente a falta de percepção do que se passa a uma escala global e o facto desta destruição ser progressiva não representando, em qualquer momento, uma urgência de actuação.

Não adianta falar dos inúmeros sinais das alterações climáticas, porque mesmo com a água até ao pescoço e ainda que 'o mundo nos caia em cima', haverá sempre quem diga que não acredita.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Reflexões sobre a sutentação da Vida


Para que uma planta nasça e se mantenha viva, não são precisas demasiadas condições. Basta conseguir absorver água, ter acesso a alguns nutrientes e, na maioria dos casos, estar exposta à luz. Há vegetais que precisam de mais condições, outros vivem nas condições mais adversas e improváveis. Em geral temos a sensação que há algum acaso quanto ao local onde as plantas nascem e que a própria natureza se encarrega de fornecer essas condições mínimas.

Quando passamos aos animais, a coisa complica-se dado que existem uma série de órgãos que precisam manter-se a funcionar. Sem entrar na diversidade de animais e de diferentes órgãos, regra geral há um cérebro irrigado por sangue que circula por acção de um coração que precisa estar a bater continuamente. Ou seja, a complexidade cresce e em termos de manutenção isso reflecte-se. Os animais precisam de se alimentar diariamente ou várias vezes ao dia.

Quanto a nós humanos, além de necessitarmos de 3 refeições ao dia, em condições normais, precisamos de nos manter saudáveis, limpos e com uma série de requisitos mais complicados que os animais. Como a maioria de nós vive em cidades, não temos acesso directo à produção de alimentos, sejam animais ou veetais, temos então que comprar alimentos com uma grande regularidade (para serem frescos) e temos que trabalhar diariamente para conseguir suportar esses gastos. O dinheiro é a forma de contornarmos a falta de ligação à terra e à produção.

Até aqui tudo será óbvio. Mas o que me levou a esta reflexão são vários factores. O nosso organismo é bastante complexo, precisamos de ter uma quantidade de nutrientes para que os nossos sistemas funcionem e um mínimo de condições ambientais. Temos que manter os nossos diversos órgãos em bom estado nem que para isso sejam precisas intervenções clínicas. Além disso é preciso um certo grau de eficiência, por exemplo, temos para quase tudo que utilizar os olhos, se não tiversos boa acuidade visual temos que utilizar óculos ou lentes. Para a complexidade da vida que levamos, não basta distinguir claros e escuros como acontece para alguns animais.

Repare-se agora o que é manter toda esta complexidade de requisitos em 5 ou 6 biliões de pessoas! Começa-se a tornar evidente que tal não é possível, simplesmente porque não há condições para que a Terra forneça tantos tantos produtos em tão grande quantidade. Acresce ainda que a distribuição de recursos na Terra é muido desequilibrada, exitindo zonas com valiosos depósitos ou muito produtivas (com água e nutrientes) e outras sem recuros. Quase todas as zonas são habitadas com maior ou menor densidade. A única forma de conseguir minimizar as dificuldades das zonas mais pobres é com o que s denmina por solidariedade, isto é, os que têm mais ajudam os que têm menos condições a manterem-se. Outra forma de resolver tais problemas é aumentando a eficiência dos meios de produção, quer com inteligência quer com tecnologia resultante do exercício dessa inteligência. Sendo assim o que parece determinante para sobrevivermos enquanto espécie parece ser mesmo a inteligência. Quanto à capacidade de a por ao serviço dos outros, dizem que é uma elevada capacidade social que nos distingue dos outros seres vivos. Será mesmo assim?

A acrescer a estas necessidades, criaram-se uma serie de necessidades não tão vitais (mas que por vezes acabam por se tornar essenciais),como sejam; um local adequado para viver, meios de transporte, conforto e uma serie de necessidades que fomos criando; computadores, equipamentos de TV e rádio, telemóveis, e uma serie de outros dispositivos mais ou menos necessários.

Dizem as pessoas que não se sentem felizes se não tiverem todos ou quase todos estes requisitos. Há um grande investimento, quer no desenvolvimento dos mesmo, quer na produção e comercialização. Isto traduz-se no custo final que implica essa mesma produção, a distribuição e comercialização e todos os custos associados; Pessoas, equipamentos, transporte, combustível, etc…

Fica a pergunta; se existem tantas pessoas que precisam da referida manutenção diária básica e essencial; alimentos e água potável, com a higiene e os cuidados médicos quase ao mesmo nível em termos de necessidade, porque razão as outras pessoas (uma suposta minoria) investe tanto e despende tanto de recursos e energia a produzir tanto para além do essencial, quando a maioria das pessoas não tem sequer o essencial?

O que falha aqui afinal?

Se atendermos à diferença das moedas, do PIB per capita dos países menos desenvolvidos, vemos que a quantia que uma pessoa nesses países precisa para sobreviver durante um ano é bastante menos do que uma pessoa gasta em qualquer dos acessórios (e.g. telemóvel) num dos países mais desenvolvidos.
E porque precisam alguns de tanto para serem “felizes” e outros podem ser “felizes” com tão pouco que os outros lhes possam dar?

Para final de reflexão; a nossa maior arte é contrariar o limite que a natureza nos coloca relativamente ao número de indivíduos e à sobrevivência dos mesmo (tal como faz com as outras espécies onde curiosamente o Homem é o factor de desequilíbrio).

A reflexão que se impõe é; de que forma estamos a forçar a nossa numerosa presença no planeta, de que forma vamos continuar a manter os nossos complexos sistemas vitais e que consequencias isso terá para os diversos seres vivos e para a sustentabilidade da própria Terra.

Estaremos a chegar ao limite? estamos a ignorar sinais evidentes desse limite? e depois do limite o que se segue?

terça-feira, 27 de maio de 2008

Tecnologia vs Biologia uma marca dos Tempos


A actual geração é marcada por uma exposição a uma quantidade enorme de estímulos completamente desconhecidos até há um século atrás.

Estes estímulos podem ser divididos em duas grandes categorias, os percepcionais e os fisiológicos. É esta a classificação, provavelmente pouco ortodoxa, que me é sugerida por uma reflexão generalista.

Por um lado a electricidade trouxe inúmeros estímulos sensoriais novos, diversos tipos de iluminação, som, movimento e imagem com os mais diversos conteúdos e mensagens, por outro estamos expostos a uma diversidade enorme de campos electromagnéticos gerados pelos mais diversos equipamentos.

A primeira secção deste tema é vastíssima e pode ser simbolizada pela informação audiovisual que recebemos, quer na televisão, quer com os jogos de computador que no caso das crianças acompanham-nas desde os primeiros anos. Inúmeros estudos comportamentais foram feitos e outros tantos estão por fazer, existe matéria para uma tantos tratados de psicologia e de psiquiatria quanto os investigadores estejam dispostos a fazer.

A segunda secção tem a ver com toda a radiação e estímulos diversos a que estamos expostos. Alguns estímulos estão associados aos dois temas, como os toques dos telemóveis, hoje em dia é praticamente impossível estar-se num local sem tocar um ou vários telemóveis. Curiosamente já existem patologias, mais ou menos formalizadas, associadas ao uso do telemóvel como é o caso das vibrações fantasmas (sentir a vibração do telemóvel sem que a mesmo tenha acontecido).

Ainda não percebi se é por razões comerciais se é por ignorância a generalidade da informação que chega ao público insiste no quanto a radiação é inofensiva… mas é preciso de facto ser ignorante para acreditar que tal é o caso!

Comecemos pela electricidade, nunca o corpo humano esteve exposto a campos tão intensos como a proximidade do campo electromagnético das linha de electricidade. Não são apenas as linhas de alta-tensão mas todas as linhas que existem por todo o lado, na rua e nos edifícios e nos quartos onde dormimos. A electricidade utiliza-se há menos de dois séculos sendo que no último século o número de dispositivos eléctricos aumentou exponencialmente.

Mas para além disso existe uma infinidade de sinais a que esta geração está exposta, todos os dispositivos que consomem electricidade emitem algum tipo de radiação, a qual decai com o quadrado da distância até à fonte, é certo, mas também é verdade que acabamos por estar sempre próximos de algum tipo de fonte de radiação.

Para além disso a variedade desta radiação também é enorme, desde os 50Hz da corrente eléctrica existe uma quantidade enorme de radiação, passando pelos megahertz das ondas de rádio e os gigahertz dos telemóveis ou de diversos outros tipos de radiação que são utilizados para comunicações. É quase surreal pensar que nenhuma destas gamas afecta de forma mais ou menos nociva o corpo humano. Como? Não se sabe… não se prova…

Basta pensar que as radiações são utilizadas para quebrar ligações atómicas e moleculares e que o comportamento das células é também modificado pela presença de campos eléctricos. É uma assunto infindável, mas sobre o qual toda a gente enfia a cabeça na areia, o que se compreende porque é uma inevitabilidade.

O que cada um pode fazer é diminuir a exposição excessiva a campos potencialmente perigosos, se tal for possível. Muito pouca gente o diz porque é impopular, é anti-comercial, alarmista e portanto politicamente incorrecto… e também porque a ignorância das pessoas sobre o tema é muito grande, sobretudo daquelas que deviam informar a população.

São sinais muito marcantes destes tempos, provavelmente demasiado marcantes para a saúde e bem-estar das pessoas e dos seres vivos em geral. Tanta gente se espanta com o crescente número de doenças e sobretudo os casos de cancro, não vejo qual o espanto, mas sobretudo preocupação.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

A diversidade dos Tempos


Hoje em dia temos uma gama extremamente variada de opções na nossa vida.

Torna-se complicado até falar nisso. Desde miúdos temos uma variedade incrível de brincadeiras, de jogos e até de dispositivos, cada um fornecendo inúmeros jogos. Quase como as caixas chinesas umas dentro das outras, assim são as consolas de jogos. De tal forma que hoje é comum dizer-se que uma criança não tem tempo de brincar com todos os brinquedos que tem disponíveis. Falar sobre este tema era, como se costuma dizer “outros 500” pois passava pelas alterações desde um passado recente de jogos tradicionais, da televisão, das múltiplas ocupações e de todos aqueles que ainda hoje não têm acesso a nada disso por falta de meios económicos. Mas isso ficará para outro post.

Enquanto adultos, seja qual for o tema as opções são variadíssimas, desde os modelos dos carros, os extras, as casas, os artigos lúdicos, as bicicletas, os gadgets. Tudo isto é muito difícil de sintetizar, mas de facto temos uma multitude de opões seja qual for o tema. Até nos assuntos mais simples existem diversas marcas ou diferentes fornecedores sempre com prós e contras.

Passando ao rumo das nossas vidas, existe também esta grande diversidade. Com gama de cursos disponíveis, a facilidade com que hoje se viaja e a possibilidade de escolher modos de vida diferentes, ou de pelo menos tentar, estes são sem dúvida tempos de diversidade.

Mas coloca-se agora a questão; sendo o homem estruturalmente e com capacidades semelhantes desde os últimos séculos, que alterações ao nível do modo de estar na vida e da percepção do mundo poderá trazer este mundo de escolhas que é a marca destes tempos.

Até no trânsito somos confrontados permanentemente com a necessidade de decidir, avançar ou ceder passagem, ir por esta rua ou por aquela, acelerar ou travar… cumprir ou exceder.

Que treino tem o nosso cérebro para todo este paradigma da escolha permanente?

Que efeito tem para nós o facto de o mundo tal como o conhecemos hoje poder ser radicalmente diferente amanhã?

Vejam-se os equipamentos electrónicos que mudaram todas as relações humanas, nos últimos tempos provavelmente o telemóvel será a mais marcante depois da internet e com consequências a todos os níveis, umas mais positivas que outras, como tudo.

Em resumo, que espaço fica para viver para além do “escolher”?

Que fundações tem a nossa vida e o nosso meio quando parecemos ser personagens dentro de um filme cujo cenário muda permanentemente?

Qual será a nossa linha de horizonte, sabemos para onde nos dirigimos e onde queremos chegar?

Finalmente, nestes tempos em que tudo muda, em que estamos em permanente aprendizagem de instruções, de procedimentos, em que as nossas ferramentas de vida que um dia foram a enxada e o arco das flechas são hoje variadíssimos e complexos equipamentos, onde fica o homem? Nós somos biologicamente praticamente iguais, mas o mundo em redor mudou radicalmente e está numa velocidade de mudança vertiginosa. Como vai o homem se adaptar a este modo de vida?

Para final de reflexão; quando nascemos temos a mesma carga genética que há centenas de anos atrás, o que acontece então ao desenvolvimento da criança num meio completamente diferente? Estaremos à altura de tudo isto, o que será que sacrificamos?

Pessoalmente creio que o homem é um dos animais da Terra, com características muito próprias, é um facto, mas que como os outros terá certamente um habitat mais conveniente, mais adaptado. Será que nos tempos que correm vivemos num bom habitat, que corresponde ás nossas necessidades biológicas, cognitivas e emocionais?

Estes são alguns dos sinais destes tempos que certamente têm repercussão no homem de hoje e naquilo que é o rumo das nossas sociedades.

sábado, 24 de maio de 2008

Em bicos-de-pés



É sempre salutar os pais puxarem pelos filhos, mas porque não puxarem por se superarem? Estimular o seu brio, a sua capacidade de evolução e a sua dedicação. Porque será sempre usada a métrica de comparação com "os outros"?

Faço o paralelismo com o jogo de futebol; as pessoas vão ao estádio ou assistem na televisão, não para ver bom futebol, mas para ver a sua equipa ganhar e conquistar pontos. Resultado, há sempre metade ou mais de metade dos adeptos que ficam tristes por perder e outra metade que ficam eufóricos, por agora. Ou então empatam e é como ser medíocre, não satisfaz a ninguém. A solução seria, talvez, sermos sempre da equipa que mais hipótese tem de ganhar, mas isso quase parecia uma falta de fidelidade a um clube ou mesmo falta de carácter. Mas ainda considero que o futebol vale o que vale, é um jogo e nada mais.

Voltando ao aluno da escola, seria desejável que todos tentassem ser da equipa vencedora, isto é, todos tivessem muito boas notas. Mas tal não acontece com frequência, porque mesmo que aconteça os professores pensam que estão a ser pouco exigentes ou alguém se encarrega de os convencer/acusar disso. As diferentes realidades dos alunos, quer as exteriores como o ambiente familiar, os meios de estudo e o apoio que lhes é dado, quer as características inerentes a cada um vão fazer com que o aproveitamento escolar seja também diferente.

Então a questão é que não podem ser todos bons e alguns vão ficar mesmo tristes, sentir-se inferiores e por fim desistir da escola.

A métrica ideal seria que cada um tentasse ir mais longe do que já tinha ido, tentar superar-se, tentar fazer mais e melhor com aquilo que é o seu património, a sua inteligência, capacidade de memória e especialmente a sua motivação e empenho.

Neste sistema de constante competição, há muito pouco estimulo á introspecção e ao trabalho em equipa. O sistema incentiva o vedetismo, aqueles que estão sempre com o dedo no ar a querer mostrar o que sabem, a querer provar que são os melhores. Que sociedade pode resultar disto? Obviamente uma sociedade de chicos-espertos!

Na nossa cultura há a imensa tendência a dizer "eu é que sei", "eu é que fiz", "se não fosse eu". Qual é o benefício social deste tipo de atitudes?

A única coisa que se entende é que as pessoas são tão pequenas e sentem-se tão diminuídas que precisam constantemente de se estar a afirmar. É que para quem sabe que é, não precisa mostrar, basta ser!

Para melhor entendimento desta complexa questão pode-se ler a obra de Erich From, "Ter ou ser" que pode servir de análise a toda a sociedade de consumo, a dicotomia entre aquilo que tenho, e aquilo que sou.

Seria bom se a solidariedade começasse pelas crianças, "Eu sei e por isso vou-te ajudar". "Eu ganhei mas vamos treinar em conjunto para um dia conseguires as tuas vitórias". "Eu soube a resposta, mas há muito mais que gostaria de aprender".

No dia em que olharmos para o nosso país, para as nossas virtudes e para os nossos defeitos e melhorarmos o que temos de mal valorizando o que temos de bom, aí temos boas possibilidades de ir longe. Mas passamos a vida a comparar com os outros países e a sentirmo-nos inferiores ou a imitar o que por vezes não faz falta nenhuma.

Um curso no estrangeiro é tipicamente mais reconhecido, a opinião de um estrangeiro vale normalmente mais e ficamos todos contentes quando alguém de fora nos elogia.

Como tentei mostrar, este é um problema de base, somos habituados desde tenra idade a pôr em bicos-de-pés, com o dedo no ar. Não admira por isso que tenhamos uma sociedade tão desequilibrada.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Ecologistas - A eterna falta de bom senso



Há várias coisas que sempre me deixaram perplexo com os ecologistas. Uma delas é a associação política à esquerda. Se está em causa a defesa do ambiente é quanto a mim um paradoxo associarem-se aos partidos de esquerda. Tirando os Estados Unidos, em todo o mundo são os países de esquerda os que menos têm respeitado o ambiente, veja-se como exemplo a China e as suas catástrofes ecológicas.

Mas opções à parte, e já que os verdes não tiveram arcaboiço para se afirmarem enquanto força política independente da politiquice comum, podemos questionar algumas das opções mais "verdes".

Uma das características das câmaras verdes ou comunistas, ou verdes... ou comunistas é o de plantar relvados por todo lado, até nas rotundas, bem como parques com muita relva, mamarrachos alusivos à revolução e umas árvores por aqui e além.

Se o conceito estético é duvidoso, a eficácia ambiental parece-me muito fraquinha e era sem dúvida benéfico que em muitos casos deixassem ficar as matas com as espécies autóctones em vez dos parques da liberdade da paz e afins.

Mas voltando ás grandes causas verdes, temos a entrada nas grandes cidades como exemplo típico das grandes bandeiras dos ecologistas. Lamentavelmente este tipo de medida faz-me sempre lembrar o antigo regime comunista soviético onde só os carros do partido podiam circular em amplas avenidas vedadas aos demais cidadãos do povo, o tão aclamado povo.

Numa cidade verde, perfeita, sustentável, todos andavam de transportes ou aglutinavam-se em carros de matriculas impar, ou par conforme o dia, todos sorriam ao olhar os imensos parques de estacionamento onde os outros, também eles felizes, agora estacionam sobre o asfalto onde antes existia serra, mato e outras plantas feias.

Sim que essas, as plantas que nascem onde não devem são quase todas feias, desordenadas e mal comportadas; no mundo verde haveria imensos viveiros camarários onde seriam criadas todas as plantas e flores, as bonitas, não as que existem no campo e nos valados. Estas flores seriam depois colocadas em canteiros preparados para o efeito, aqueles bem delimitados entre a Rua A e a B ou preenchendo toda a praceta ao fundo do bairro, no espaço entre a pista das bicicletas, o parque dos skates mais o dos patins e ainda o pequeno laguinho onde sobrevivem ainda algumas resistentes tainhas.

Na cidade verde arrasam-se as árvores seculares para circular o metro e mais as bicicletas e outra infinidade de veículos, todos eles imensamente verdes.

E então os defensores da cidade verde não querem mais pontes porque isso era mais carros, cruzes credo, isso é que não.

Esquecem-se os brilhantes cérebros verdes que centenas de milhares de carros nas filas a deitar fumo de escape poluem mais que uma central termoeléctrica. Esquecem-se as mentes verdes que as horas de trabalho perdidas no trânsito custam caro a um país que está em crise. Esquecem ainda a quantidade de horas de descanso suprimidas, a paciência esgotada e a carga de nervos no inicio e final do dia que serão tudo menos saudáveis. Esquecem-se os verdiculas que facilitando o transito os carros gastam menos e poluem menos.

E o que sobra no meio disto é que para o protagonismo de algumas figuras, continua a não se encontrar soluções para os peões e carros conviverem na mesma cidade, continua-se a permitir os congestionamentos à entrada das cidades, tirando horas de trabalho, de descanso, de saúde mental e gerando toneladas de CO2 e tantos outros poluentes.

Como tenho direito de pensar e de exprimir, sinto-me mais ecologista que a maioria daqueles que se dizem, vá-se lá saber porquê, defensores da natureza, do clima e do ambiente.




terça-feira, 20 de maio de 2008

Afinal o que é isso da... Liberdade?



Hoje em dia uma questão que se coloca muito é o desinteresse das pessoas pela política, em especial dos jovens. Não posso responder pelos outros, mas posso responder por mim. Não acredito no sistema em Portugal, não confio na justiça e muito menos na liberdade de expressão.

A única liberdade em que acredito é a liberdade de pensar, essa ainda não podem atacar, mas já todas as outras formas de expressão são, quanto a mim, questionáveis.

Vejamos; se eu pensar mal digamos do primeiro-ministro ou do presidente da república, nada me pode acontecer. Mas se eu o escrever ou disser mal, mesmo que seja o que penso, como é?

Ah pois é…

Ou as afirmações são muito suaves, ou… quem as disser terá que responder em tribunal.

E chamam a isto Liberdade…

Claro que a liberdade acarreta responsabilidade, mas também é verdade que quem está num cargo público expõe-se! Mas também por isso tem assessores e protecção jurídica especial, tão especial que podem recusar-se a ir a tribunal: imunidade diplomática.

O que acontece é que os chamados defensores da liberdade instituíram a proibição de falar mal… deles próprios.

No tempo da opressão, antes do 25 de Abril, os actuais governantes e detentores de cargos de poder rebelaram-se contra o poder instituído, por isso tornaram-se “heróis” e acederam a um estatuto e protagonismo que de outra forma podiam não obter. Hoje estabelecem as regras da liberdade, ou seja, as regras da repressão!

As manifestações estudantis eram, no tempo deles, formas de expressão da liberdade e da revolta da juventude que aspirava a uma sociedade melhor e mais justa… é lindo!
Hoje, são uns índios, uns irresponsáveis e uns prevaricadores. O que mudou então?
Mudou uma geração, mudou que “os outros” agora são eles!

Mas curiosamente esta geração é a geração dos filhos dessa geração tão lutadora e que tanto se congratula com as ‘vitórias de Abril’ mas foram também eles que mandaram a policia carregar nos estudantes (era tão romântico no tempo deles) e agora é “a defesa do estado de direito”. Obviamente os jovens cansaram-se, desistiram e os jovens de há 5 ou 10 anos são hoje os adultos amorfos e descrentes que já não querem saber da política e dos politicos, não acreditam em nada e querem que os deixem em paz com a sua prestação da casa (sempre a subir) uns litros de gasolina a preço de ouro e com o carro a ver se passa mais uma inspecção!

Qual é então o espanto dos jovens e até dos adultos se terem desligado da politica?

Eu acho no mínimo uma hipocrisia que venham mostrar grande admiração com isso.

Por último, devo dizer que acho inaceitáveis as manifestações xenófobas por contrariarem a igualdade que deve ser uma meta para qualquer sociedade que se queira justa e equilibrada.

Não concordo com movimentos radicais nem com a difamação despudorada e gratuita, tudo bem. Mas o que tem acontecido é que a repressão toca a todos que são contra os governos, não só este, mas todos os últimos governos.

Senhores políticos; ganharem eleições não é receberem um chegue em branco!

A democracia quer-se participativa, quando se ignoram as manifestações de estudantes, professores ou outros trabalhadores está-se a promover um país autocrático onde o grupo do poder vai rodando mas que se estratifica nos que fazem parte da politica e nos “outros”.

Assim se afastam as pessoas da política e da participação cívica na sociedade.
Para quê manifestar opiniões se o máximo que daí resulta é repressão?

Todos assimilámos a ideia de que não adianta espernear; não adianta pensar, não adianta dizer, não adianta manifestar... nada adianta porque nada muda, a menos que eles queiram, mas isso é tratar-nos a todos como crianças como incapazes e ignorantes. Então não sei se os políticos têm o povo que merecem ou se o povo tem os políticos que merece.

Identifico-me com o centro de direita, mas não gosto do que têm feito nestes últimos 10 anos com o meu país. Tenho dito!

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Não tem que ser mau



Os últimos acontecimentos podem induzir uma perspectiva de que o mundo vai muito mal e que é urgente mudar algo, mudar muita coisa e que o lado rico e poderoso do mundo tenha complacência e ajude o lado mais pobre e mais fragilizado.
Isto é bem verdade, é um facto indesmentível e incontornável.

Mas entretanto o mundo de primeira categoria, em contraposição com o terceiro mundo, vive com qualidade, de forma abastada e tenta ser feliz.

É perfeitamente justo querer ser feliz!

A nossa vida é uma procura de felicidade e é muito natural que alguns consigam seguir esse caminho.

Não é por os mais abastados terem uma vida triste que melhora alguma coisa nos mais pobres.

Assim sendo é natural que a sociedade dita consumista viva bem, que procure a beleza e que procure acima de tudo ser feliz.

Quando alguém é feliz está também a mostrar aos outros que é possível ser feliz e portanto pode servir de estímulo aos outros.

A beleza, o encanto, as pessoas vestirem-se bem e cuidarem de si faz parte afinal do que somos e do que lamentavelmente nem todos podemos conseguir. Mas haverá algo errado em mostrá-lo? Devíamos pois virar a cara ao que é belo, escondê-lo da televisão? De facto não, isso seria duplicar o erro. É bom que as pessoas se divirtam, que se encantem, que riam e que chorem de comoção.

Não faz por isso sentido a hipocrisia de ser falsamente sensível, antes ser genuino na procura da felicidade. Apenas convinha que, por vezes, as pessoas se lembrassem que podem fazer a diferença, hoje no seu quintal, amanhã num sentído muito mais alargado.

Boas pessoas existem, muitas, mas curiosamente essas não atingem lugares de topo, não são dirigentes, não são lideres... e é pena.

O que parece acontecer é que na subida para o topo, os lideres políticos, os grandes dirigentes das empresas ou das nações vão abdicando dos seus ideais, vão aligeirando os seus princípios e em suma... vendendo a alma ao diabo.

A Dimensão da Indiferença (IV)


Olhar para o lado

Se há coisa fácil de fazer é olhar para o lado.
Quando vemos a miséria, quando alguém faz um peditório, olhamos para o lado.

Mas olhar para o lado é um direito que nos assiste. Se o mundo se apresenta com fealdade, com aspectos desagradáveis, podemos sempre olhar para o lado.

Quando são estados inteiros a olhar para o lado, ou toda uma comunidade internacional com esse procedimento, aí as coisas complicam-se.

Afinal para nós tudo se traduz numa linha de informação "a cada 2 segundos uma criança morre de fome". Ok morre em África, é tão longe, que posso eu fazer e afinal... o golo do jogo da taça foi ou não bem anulado?
Assim já estamos a chegar a algum lado, esse é um tema válido e actual para discutir com os colegas do trabalho!!

A questão é que crianças morriam, morrem, vão continuar a morrer independentemente do que se diz ou faz... e tudo se traduz numa linha de noticiário imediatamente antes do resumo da jornada ou do caso da Dona Gertrudes que já escreveu n cartas a pedir que lhe arranjem o passeio esburacado a quando das ultimas obras de conservação.

É assim a vida, todos temos os nossos problemas diários uns têm a ver com multas de estacionamento outros com falta de grãos de arroz cozido pra enganar uma fome que dura desde sempre. Fazer o quê? a vida é assim mesmo...

Este tema é enorme, tão gigante quanto a desigualdade no mundo, é incómodo, inconveniente e no fundo tão simples quanto olhar para o lado... mudar de canal.

Na realidade até querem-se soluções e não problemas, e este é um problema chato, aborrecido... olhemos pois para o lado, com confiança e com a nossa imensa dignidade.

Apenas alguns dados da Unicef.
Por dia 26 mil crianças com menos de 5 anos
cerca de 9,7 milhões de crianças morrem em todo mundo antes do 5º aniversário

E nós, parvos como eu, preocupados com n tarefas fundamentais como a entrega do IRS, o documento que já devia ter terminado a semana passada, entre muitas outras prioridades, todas elas urgentes.

Quanto a ti, não sei, mas eu vou continuar a olhar para o lado, e já que eu não quero ter pena de mim por ser assim, que Deus tenha esse papel. Afinal é para isso que serve Deus, não é?

Em relação à solidariedade, encontramos sempre vários pontos chave que os mais "iluminados" desta sociedade nos fazem o favor de elucidar:

1º As pessoas são pobres porque não quiseram trabalhar
2º As pessoas pobres até têm bom corpo só que não querem fazer nada
3º Isso de África não adianta ajudar porque vai tudo para o mercado negro
4º Não adianta estar-se a ajudar hoje porque daqui a uns dias a fome é a mesma
5º As organizações humanitárias é tudo o mesmo, querem-se autopromover
6ª E por ultimo, eles não se ajudam a eles próprios, os governantes 'abotoam-se' e por isso não temos que ser nós a ajudar.

Estes e outros raciocínios tão rápidos como idiotas estão extremamente difundidos, funcionam como uma cábula que a maioria de nós tem sempre à mão para não dar nada a ninguém. Depois gasta-se 30€ nuns sapatos... ou 45€ porque são mesmo giros (há aqui 15€ que são margem de manobra) ou então toma-se a bica a 60c quando ali ao lado é a 40c mas dar 20c de ajuda 'não tem interesse até porque não muda nada'.
Depois vamos ver um concerto é bom, faz parte do nosso divertimento, mas com aquele dinheiro havia dezenas de milhares de crianças que tinham, finalmente, uma refeição que não fosse uma qualquer farinha misturada com água.

A verdade é que os governos podem não ser eficazes, mas a pessoa de fora pensa; ou vou ajudar quem precisa já que os seus governantes os ignoram, ou aproveitamos a deixa e dizemos; é melhor não, não vale a pena e não adianta. Felizmente há muito boa gente que pensa que o seu grão, o seu pequeno contributo há-de fazer parte de um rio, que mesmo com muitos desvios para outros destinos acabará por chegar, incompleto e desgastado, mas de alguma forma cumprirá o seu destino.

Claro que precisamos de nos divertir e não nos cabe a nós fazer a diferença. Por isso o melhor mesmo é olhar para o lado e ser feliz, ter amores, um apartamento T2 e um TDI à porta de casa. Sejam pois felizes e dêem-se por felizes de ter nascido num país, que apesar de "mau e cheio de problemas" vos permite ter aquilo que outros nem ousam sonhar.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

A Dimensão da Indiferença (III)


(in www.portugaldiario.pt)

Os 10%

Assistimos nestes últimos dias a uma quase 'competição' de números sobre as mortes no terramoto da China ou no furacão de Myanmar. Nesta altura os números andam pelos 40.000 ou 50.000 mortes, em parte pela incerteza dos desaparecidos, mas por outro porque ao avolumarem-se as mortes, cada dezena, cada centena e sobretudo cada pessoa perde o significado. É o que eu chamaria do síndrome das mortes percentuais. Com o aumentar da dimensão das catástrofes, os números perdem significado ao aproximarem-se dos 10%, ou seja, serem 40.000 ou 44.000, parece que já não faz muita diferença. Que mundo este...

A verdade é que mesmo sem tragédia nenhuma a nossa percepção tem sérias limitações dos números no que toca a indivíduos. Nós conseguimos facilmente visualizar uma pessoa, 5 ou mesmo 50 pessoas, mas quando começa a aumentar temos dificuldades. Se falarmos em 100 pessoas talvez se consiga lembrar o número de todas mas a percepção do conjunto começa a desaparecer. um milhar de pessoas é "muita gente" e quando um salão se enche já temos dificuldade em saber se lá estarão 2000 ou 3000 pessoas e um estádio de futebol tem mesmo muita gente mas perdemos de todo a noção dos indivíduos. Esta é talvez uma questão que tem a ver com a nossa própria dimensão e capacidades, não conseguimos falar com muita gente ao mesmo tempo, não conseguimos fazer uma actividade conjunta com muita gente ao mesmo tempo e a nossa visão não consegue ver detalhadamente a mais que uma certa distância. Portanto acima de um certo conjunto de pessoas perdemos a percepção que temos na proximidade e perdemos a capacidade de comunicar bilateralmente com as pessoas. Num evento público um orador ou um artista consegue chegar a muita gente mas dessas pessoas só consegue obter ruídos, sons da multidão, sílabas pronunciadas em conjunto.

Este é sem dúvida um marco importante para a indiferença; quando a dimensão de um grupo começa a aumentar, a nossa percepção altera-se à medida que o grupo aumenta e a capacidade de comunicação diminui. Se este grupo for constituído por pessoas que desconhecemos então a indiferença é uma realidade apenas contrariada pelos nossos valores como a solidariedade o humanismo e a compaixão, qualquer deles em aparente declínio nos dias que correm.

Outro aspecto que toma a indiferença é que com catástrofes desta dimensão as outras catástrofes perdem sentido. Na Nigéria o rebentamento de um oleaduto provoca cerca de 100 mortes, um número muito abaixo dos 10% das outras catástrofes. A tal ponto estas 'cento e tal', 99, 100 ou até 101 pessoas se tornam de tal forma irrelevantes que um jornal diário fala em 'centenas' de pessoas, afinal sendo mais que 100 já se aproxima das 200 e portanto já pode ser plural 'centenas'. Fica pois com a sensação de que uma catástrofe muito grande torna irrelevante outros acontecimentos de menor dimensão até porque são mais frequentes.

A dimensão da indiferença, dos leitores ou dos espectadores de televisão, torna-se de alguma forma irrelevante na medida em que não podem alterar os factos. Podem quando muito atenuá-los, dar contribuição, influenciarem os governos dos países. Nesse caso podem fazer uma grande diferença em relação aos sobreviventes e às suas necessidades embora isso seja parte da questão.

Na realidade, não é por haver mais pessoas no mundo entristecidas com um acontecimento que vai alterar a tristeza de cada pessoa que sofreu a perda de alguém, dos bens ou dos meios de subsistência. A indiferença dos outros pode ser aqui irrelevante mas a ajuda que for dada e o conforto de saber que aluguem se preocupa e está disposto a ajudar pode fazer a diferença na forma como as pessoas encaram a vida nesses momentos de dificuldade.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

A Dimensão da Indiferença (II)


A nossa capacidade de esquecer maus acontecimentos do nosso passado, funciona na maioria das vezes, como uma importante defesa dos nossos tormentos. Em muitos acontecimentos traumáticos as pessoas esquecem completamente o que lhes aconteceu durante um episódio ou uma fase da vida. Estes mecanismos de defesa, sobejamente conhecidos em psicologia, acabam muitas vezes por ter um efeito positivo na nossa vida e na nossa estabilidade emocional.

Quando estes acontecimentos não são connosco afectam-nos menos, se forem com pessoas próximas podem ainda nos abalar. Mas se for com pessoas afastadas, qual deverá ser a dimensão da nossa indiferença?

O que assistimos hoje em dia com a generalidade das pessoas com quem convivemos diariamente é que a questão da indiferença nem se coloca porque tirando os acontecimentos muito badalados, o resto passa completamente ao lado. Há uma ignorância generalizada que resulta desta permanente difusão de notícias.
Então neste caso pode-se dizer que a dimensão da ignorância tira significado à dimensão da indiferença. Naturalmente toda a gente é indiferente àquilo que desconhece!

Voltando ao inicio deste ponto, existe uma capacidade de esquecer o passado associada à necessidade de nos proteger do sofrimento que certas situações acarretam. Então se nós formos sensíveis aos 'males do mundo' não seria útil não esquecermos também tantos problemas que por lá acontecem?
Visto dessa forma, ignorar pode ser uma boa escolha e ser indiferente uma capacidade que nos protege do sofrimento.

Mas então como fica a dimensão da nossa responsabilidade social e individual perante um mundo, do qual não nos poderemos nunca dissociar?

A Dimensão da Indiferença (I)


A questão da indiferença das pessoas é um dos temas que se afiguram simples de identificar e extremamente complexo de debater.

Uma das grandes consequências da globalização e do acesso que temos ás notícias do mundo é a consciência que nós tomamos diariamente do que se passa nessas outras partes do mundo com pessoas idênticas a nós. Tão idênticas que podíamos ser nós próprios. Seguindo este raciocínio rapidamente percebemos que para as outras partes do mundo nós somos "os outros".

Quando ouvimos as notícias, quase sempre são más noticias, por diversas razões; porque é o que as pessoas gostam de ouvir, o que dá audiências, o que vende jornais, etc...

Muito se poderia dizer da voracidade dos jornais em publicar o que é mau, o que é terrível e em como eles influenciam e são influenciados pela opinião pública. Mas não entrando, para já, por aí, temos diariamente uma dose de más notícias.
Sendo assim, o que nos importa em particular, é nunca ser "os outros" pelo menos não na maioria das notícias que, como foi dito, são más noticias.
Então o que nos faz de facto diferentes dos outros?

É uma questão pertinente. Talvez o facto de vivermos num país mais tranquilo, fora do grupo de risco que é o terceiro mundo e onde estas catástrofes da natureza não são frequentes.
Em geral não nos preocupamos demasiado com isto, diria que ninguém por aqui deixa de dormir porque há um furacão ou um terramoto do outro lado do mundo.
Mas então qual é a proximidade para nos preocuparmos?

Se fosse na nossa cidade seria uma catástrofe até porque certamente tínhamos lá familiares ou amigos, se fosse noutra cidade do país também ficaríamos preocupadíssimos, e se fosse em Espanha... França... América... até onde? - Está em causa uma questão geográfica, cultural ou religiosa? Em sintese a questão será sempre onde se situam as nossas fronteiras em cada um destes aspectos ou na súmula de todos eles?

Por outro lado, se nos preocupamos o que isso vai adiantar? O que altera o facto de nos preocuparmos?
Para nós importa para a nossa tranquilidade e para a nossa felicidade, mas para os outros só importa se estivermos dispostos a agir. Mas partindo do princípio que estamos dispostos a agir, no que se pode traduzir essa ajuda? - Dinheiro, roupas, alimentos, apoio moral?

São de facto questões dificeis de responder, mas que esperamos sempre que exista o "nós" e os "outros" e em que as coisas acontecem "aos outros" e "nós preocupamo-nos, ou não, ajudamos, ou não, ignoramos, ou não.

Não é uma visão bonita do nosso modo de ser e da nossa atitude perante os outros. Mas pergunto; podia ser outra?

Cada um encontrará a sua resposta, a minha resposta muito pessoal é que dificilmente seria diferente mas que se cada um de nós se fosse menos indiferente, por pouco que fosse, o mundo seria um local bem melhor de certeza.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Catástrofes naturais



As razões para tantas transformações sociais são diversas. A maioria são causadas pelo homem, muito mais que aquelas que são causadas pela natureza, mesmo se não considerarmos as modificações da natureza provocadas pelo homem.

Há pouco tempo podia-se ver na CNN a quantidade de furacões que atingiam os estados unidos, causando danos e algumas mortes. Ainda com esses furacões em força nos EUA, em Myanmar, antiga Birmânia dá-se uma catástrofe de proporções impensáveis de inicio, a trazer à memória o furacão Katrina que devastou New Orleans ou ainda antes o violento Tsunami de 2004.

Numa altura em que se pensava que o clima estava a ser a grande força devastadora e que, tirando a guerra, as maiores perdas humanas se deviam a fenómenos climáticos, eis que surge um terramoto cuja destruição supera toda a destruição dos últimos dias à excepção de Myanmar.

Tempos confusos estes em que nem se consegue apontar um culpado, o que, na maioria das vezes, ajuda a diminuir a revolta.

A questão agora é a seguinte; a seca, as cheias, os tornados e os furacões, tudo isso pode ser atribuído ao homem, seja pelas emissões de gases seja pelas alterações dos ecossistemas, mas um terramoto não!

Então o problema persiste; quem culpar?

Em alguns casos culpa-se a falta de prevenção, noutros a falta de ajuda mas será que é assim tão necessário arranjar culpados?

O mais importante será encontrar soluções, resolução dos problemas e prevenção no futuro. É esse o papel dos governantes e de cada pessoa que assuma o seu papel na sociedade como lhe é de direito.

Não existe nenhuma prova que ligue um terramoto a causas humanas. A menos que se invoque alguma força protectora da Terra (Gaia a deusa da Terra) mas aí entramos num plano esotérico que quase todos rejeitam ou fingem rejeitar.

Em resumo destas ultimas semanas, verifica-se um grande número de ocorrências, mas será que alguém faz a correlação de tudo isto?

Certamente que sim! O Google não tem respostas fáceis para tudo, pelo menos em tempo útil. A maioria das pesquisas terminam em algo apocalíptico de carácter religioso ou espiritual, o que pode ser útil no seu contexto mas não trás mais valia do ponto de vista prático. Continuarei a pesquisar se existem de facto épocas de maior ocorrência de fenómenos anómalos a nível do planeta e se existem periodicidades ou alturas mais criticas. É um desafio que aqui fica a quem ler este artigo.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Sinais dos Tempos


Esta é uma expressão que sempre me despertou interesse "sinais dos tempos".

Tanta coisa que acontece nos chamados dias de hoje, novidades, coisas que nunca tinham acontecido. A expressão é tanto mais interessante quanto mais pensamos que as alterações que se aplicam até aos dias de hoje, nos mais diversos quadrantes, vão gerar mudanças na sociedade e no mundo em geral.

Existe sem dúvida um nexo de causalidade entre o que foi o passado e o que é o futuro, o que levanta a grande questão; sendo nós, seres vivos no tempo presente, que futuro estamos a delinear?

Daqui podemos pensar que existe uma consciência colectiva, não articulada como um organismo vivo, mas que no fundo gera tudo o que é o mundo actual e em ultima análise está a produzir o dia de amanhã. Se assumimos que essa consciência é produto de todos nós e da nossa interacção com o mundo, então o amanhã é quase o resultado de um veículo desgovernado que avança de forma imparável sabe-se lá para onde; uma montanha russa sem carris. Mas se por outro lado assumirmos que existe uma consciência colectiva, assertiva, com todo o tipo de facetas e omnipresente, então o que é isso senão Deus?

Não se trata aqui de provar a existência de Deus, mas o veículo desgovernado não agrada de todo.

Haverá pois outra forma de olhar para o Tempo?