
Olhar para o lado
Se há coisa fácil de fazer é olhar para o lado.
Quando vemos a miséria, quando alguém faz um peditório, olhamos para o lado.
Mas olhar para o lado é um direito que nos assiste. Se o mundo se apresenta com fealdade, com aspectos desagradáveis, podemos sempre olhar para o lado.
Quando são estados inteiros a olhar para o lado, ou toda uma comunidade internacional com esse procedimento, aí as coisas complicam-se.
Afinal para nós tudo se traduz numa linha de informação "a cada 2 segundos uma criança morre de fome". Ok morre em África, é tão longe, que posso eu fazer e afinal... o golo do jogo da taça foi ou não bem anulado?
Assim já estamos a chegar a algum lado, esse é um tema válido e actual para discutir com os colegas do trabalho!!
A questão é que crianças morriam, morrem, vão continuar a morrer independentemente do que se diz ou faz... e tudo se traduz numa linha de noticiário imediatamente antes do resumo da jornada ou do caso da Dona Gertrudes que já escreveu n cartas a pedir que lhe arranjem o passeio esburacado a quando das ultimas obras de conservação.
É assim a vida, todos temos os nossos problemas diários uns têm a ver com multas de estacionamento outros com falta de grãos de arroz cozido pra enganar uma fome que dura desde sempre. Fazer o quê? a vida é assim mesmo...
Este tema é enorme, tão gigante quanto a desigualdade no mundo, é incómodo, inconveniente e no fundo tão simples quanto olhar para o lado... mudar de canal.
Na realidade até querem-se soluções e não problemas, e este é um problema chato, aborrecido... olhemos pois para o lado, com confiança e com a nossa imensa dignidade.
Apenas alguns dados da Unicef.
Por dia 26 mil crianças com menos de 5 anos
cerca de 9,7 milhões de crianças morrem em todo mundo antes do 5º aniversário
E nós, parvos como eu, preocupados com n tarefas fundamentais como a entrega do IRS, o documento que já devia ter terminado a semana passada, entre muitas outras prioridades, todas elas urgentes.
Quanto a ti, não sei, mas eu vou continuar a olhar para o lado, e já que eu não quero ter pena de mim por ser assim, que Deus tenha esse papel. Afinal é para isso que serve Deus, não é?
Em relação à solidariedade, encontramos sempre vários pontos chave que os mais "iluminados" desta sociedade nos fazem o favor de elucidar:
1º As pessoas são pobres porque não quiseram trabalhar
2º As pessoas pobres até têm bom corpo só que não querem fazer nada
3º Isso de África não adianta ajudar porque vai tudo para o mercado negro
4º Não adianta estar-se a ajudar hoje porque daqui a uns dias a fome é a mesma
5º As organizações humanitárias é tudo o mesmo, querem-se autopromover
6ª E por ultimo, eles não se ajudam a eles próprios, os governantes 'abotoam-se' e por isso não temos que ser nós a ajudar.
Estes e outros raciocínios tão rápidos como idiotas estão extremamente difundidos, funcionam como uma cábula que a maioria de nós tem sempre à mão para não dar nada a ninguém. Depois gasta-se 30€ nuns sapatos... ou 45€ porque são mesmo giros (há aqui 15€ que são margem de manobra) ou então toma-se a bica a 60c quando ali ao lado é a 40c mas dar 20c de ajuda 'não tem interesse até porque não muda nada'.
Depois vamos ver um concerto é bom, faz parte do nosso divertimento, mas com aquele dinheiro havia dezenas de milhares de crianças que tinham, finalmente, uma refeição que não fosse uma qualquer farinha misturada com água.
A verdade é que os governos podem não ser eficazes, mas a pessoa de fora pensa; ou vou ajudar quem precisa já que os seus governantes os ignoram, ou aproveitamos a deixa e dizemos; é melhor não, não vale a pena e não adianta. Felizmente há muito boa gente que pensa que o seu grão, o seu pequeno contributo há-de fazer parte de um rio, que mesmo com muitos desvios para outros destinos acabará por chegar, incompleto e desgastado, mas de alguma forma cumprirá o seu destino.
Claro que precisamos de nos divertir e não nos cabe a nós fazer a diferença. Por isso o melhor mesmo é olhar para o lado e ser feliz, ter amores, um apartamento T2 e um TDI à porta de casa. Sejam pois felizes e dêem-se por felizes de ter nascido num país, que apesar de "mau e cheio de problemas" vos permite ter aquilo que outros nem ousam sonhar.
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