sexta-feira, 16 de maio de 2008

A Dimensão da Indiferença (III)


(in www.portugaldiario.pt)

Os 10%

Assistimos nestes últimos dias a uma quase 'competição' de números sobre as mortes no terramoto da China ou no furacão de Myanmar. Nesta altura os números andam pelos 40.000 ou 50.000 mortes, em parte pela incerteza dos desaparecidos, mas por outro porque ao avolumarem-se as mortes, cada dezena, cada centena e sobretudo cada pessoa perde o significado. É o que eu chamaria do síndrome das mortes percentuais. Com o aumentar da dimensão das catástrofes, os números perdem significado ao aproximarem-se dos 10%, ou seja, serem 40.000 ou 44.000, parece que já não faz muita diferença. Que mundo este...

A verdade é que mesmo sem tragédia nenhuma a nossa percepção tem sérias limitações dos números no que toca a indivíduos. Nós conseguimos facilmente visualizar uma pessoa, 5 ou mesmo 50 pessoas, mas quando começa a aumentar temos dificuldades. Se falarmos em 100 pessoas talvez se consiga lembrar o número de todas mas a percepção do conjunto começa a desaparecer. um milhar de pessoas é "muita gente" e quando um salão se enche já temos dificuldade em saber se lá estarão 2000 ou 3000 pessoas e um estádio de futebol tem mesmo muita gente mas perdemos de todo a noção dos indivíduos. Esta é talvez uma questão que tem a ver com a nossa própria dimensão e capacidades, não conseguimos falar com muita gente ao mesmo tempo, não conseguimos fazer uma actividade conjunta com muita gente ao mesmo tempo e a nossa visão não consegue ver detalhadamente a mais que uma certa distância. Portanto acima de um certo conjunto de pessoas perdemos a percepção que temos na proximidade e perdemos a capacidade de comunicar bilateralmente com as pessoas. Num evento público um orador ou um artista consegue chegar a muita gente mas dessas pessoas só consegue obter ruídos, sons da multidão, sílabas pronunciadas em conjunto.

Este é sem dúvida um marco importante para a indiferença; quando a dimensão de um grupo começa a aumentar, a nossa percepção altera-se à medida que o grupo aumenta e a capacidade de comunicação diminui. Se este grupo for constituído por pessoas que desconhecemos então a indiferença é uma realidade apenas contrariada pelos nossos valores como a solidariedade o humanismo e a compaixão, qualquer deles em aparente declínio nos dias que correm.

Outro aspecto que toma a indiferença é que com catástrofes desta dimensão as outras catástrofes perdem sentido. Na Nigéria o rebentamento de um oleaduto provoca cerca de 100 mortes, um número muito abaixo dos 10% das outras catástrofes. A tal ponto estas 'cento e tal', 99, 100 ou até 101 pessoas se tornam de tal forma irrelevantes que um jornal diário fala em 'centenas' de pessoas, afinal sendo mais que 100 já se aproxima das 200 e portanto já pode ser plural 'centenas'. Fica pois com a sensação de que uma catástrofe muito grande torna irrelevante outros acontecimentos de menor dimensão até porque são mais frequentes.

A dimensão da indiferença, dos leitores ou dos espectadores de televisão, torna-se de alguma forma irrelevante na medida em que não podem alterar os factos. Podem quando muito atenuá-los, dar contribuição, influenciarem os governos dos países. Nesse caso podem fazer uma grande diferença em relação aos sobreviventes e às suas necessidades embora isso seja parte da questão.

Na realidade, não é por haver mais pessoas no mundo entristecidas com um acontecimento que vai alterar a tristeza de cada pessoa que sofreu a perda de alguém, dos bens ou dos meios de subsistência. A indiferença dos outros pode ser aqui irrelevante mas a ajuda que for dada e o conforto de saber que aluguem se preocupa e está disposto a ajudar pode fazer a diferença na forma como as pessoas encaram a vida nesses momentos de dificuldade.

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