sábado, 24 de maio de 2008

Em bicos-de-pés



É sempre salutar os pais puxarem pelos filhos, mas porque não puxarem por se superarem? Estimular o seu brio, a sua capacidade de evolução e a sua dedicação. Porque será sempre usada a métrica de comparação com "os outros"?

Faço o paralelismo com o jogo de futebol; as pessoas vão ao estádio ou assistem na televisão, não para ver bom futebol, mas para ver a sua equipa ganhar e conquistar pontos. Resultado, há sempre metade ou mais de metade dos adeptos que ficam tristes por perder e outra metade que ficam eufóricos, por agora. Ou então empatam e é como ser medíocre, não satisfaz a ninguém. A solução seria, talvez, sermos sempre da equipa que mais hipótese tem de ganhar, mas isso quase parecia uma falta de fidelidade a um clube ou mesmo falta de carácter. Mas ainda considero que o futebol vale o que vale, é um jogo e nada mais.

Voltando ao aluno da escola, seria desejável que todos tentassem ser da equipa vencedora, isto é, todos tivessem muito boas notas. Mas tal não acontece com frequência, porque mesmo que aconteça os professores pensam que estão a ser pouco exigentes ou alguém se encarrega de os convencer/acusar disso. As diferentes realidades dos alunos, quer as exteriores como o ambiente familiar, os meios de estudo e o apoio que lhes é dado, quer as características inerentes a cada um vão fazer com que o aproveitamento escolar seja também diferente.

Então a questão é que não podem ser todos bons e alguns vão ficar mesmo tristes, sentir-se inferiores e por fim desistir da escola.

A métrica ideal seria que cada um tentasse ir mais longe do que já tinha ido, tentar superar-se, tentar fazer mais e melhor com aquilo que é o seu património, a sua inteligência, capacidade de memória e especialmente a sua motivação e empenho.

Neste sistema de constante competição, há muito pouco estimulo á introspecção e ao trabalho em equipa. O sistema incentiva o vedetismo, aqueles que estão sempre com o dedo no ar a querer mostrar o que sabem, a querer provar que são os melhores. Que sociedade pode resultar disto? Obviamente uma sociedade de chicos-espertos!

Na nossa cultura há a imensa tendência a dizer "eu é que sei", "eu é que fiz", "se não fosse eu". Qual é o benefício social deste tipo de atitudes?

A única coisa que se entende é que as pessoas são tão pequenas e sentem-se tão diminuídas que precisam constantemente de se estar a afirmar. É que para quem sabe que é, não precisa mostrar, basta ser!

Para melhor entendimento desta complexa questão pode-se ler a obra de Erich From, "Ter ou ser" que pode servir de análise a toda a sociedade de consumo, a dicotomia entre aquilo que tenho, e aquilo que sou.

Seria bom se a solidariedade começasse pelas crianças, "Eu sei e por isso vou-te ajudar". "Eu ganhei mas vamos treinar em conjunto para um dia conseguires as tuas vitórias". "Eu soube a resposta, mas há muito mais que gostaria de aprender".

No dia em que olharmos para o nosso país, para as nossas virtudes e para os nossos defeitos e melhorarmos o que temos de mal valorizando o que temos de bom, aí temos boas possibilidades de ir longe. Mas passamos a vida a comparar com os outros países e a sentirmo-nos inferiores ou a imitar o que por vezes não faz falta nenhuma.

Um curso no estrangeiro é tipicamente mais reconhecido, a opinião de um estrangeiro vale normalmente mais e ficamos todos contentes quando alguém de fora nos elogia.

Como tentei mostrar, este é um problema de base, somos habituados desde tenra idade a pôr em bicos-de-pés, com o dedo no ar. Não admira por isso que tenhamos uma sociedade tão desequilibrada.

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